Inteligência artificial em pesquisas com seres humanos: o que muda com o novo guia da Inaep

Por rezeta 30 de setembro de 2026

A inteligência artificial já faz parte da rotina de diversas áreas da ciência e da saúde. Na pesquisa com seres humanos, porém, sua utilização traz questões que vão além da eficiência ou da inovação tecnológica.

Como garantir que os dados utilizados sejam adequados e representativos? Como identificar possíveis vieses? Quem supervisiona as decisões tomadas por um sistema de IA? Como proteger a privacidade dos participantes? E, principalmente, como avaliar os riscos éticos envolvidos?

Para apoiar essas discussões, a Instância Nacional de Ética em Pesquisa (Inaep), vinculada ao Ministério da Saúde, aprovou em setembro de 2026 o Guia de Uso Ético de Inteligência Artificial em Pesquisa com Seres Humanos.

O documento estabelece uma referência comum para pesquisadores, instituições e Comitês de Ética em Pesquisa (CEPs) avaliarem projetos que utilizem inteligência artificial.

Por que esse guia é importante?

O uso de IA em uma pesquisa pode acontecer de diferentes formas: análise de grandes bases de dados, identificação de padrões, apoio a diagnósticos, processamento de informações, desenvolvimento de ferramentas ou utilização de modelos para determinadas etapas da investigação.

Cada uma dessas aplicações pode apresentar riscos diferentes.

O novo guia procura justamente estruturar essa avaliação, considerando aspectos como:

  • proteção de dados e privacidade;
  • qualidade e representatividade dos dados;
  • possibilidade de vieses algorítmicos;
  • transparência e explicabilidade;
  • supervisão humana;
  • monitoramento do sistema ao longo da pesquisa;
  • proporcionalidade entre riscos, benefícios e medidas de proteção.

Assim, a discussão deixa de ser simplesmente “podemos utilizar IA?” e passa a considerar como a tecnologia será utilizada, quais riscos ela pode introduzir e quais salvaguardas serão adotadas.

A avaliação ética continua sendo responsabilidade do CEP

Um ponto importante para pesquisadores e profissionais regulatórios é que a ferramenta criada pela Inaep não substitui a análise do Comitê de Ética em Pesquisa.

O conjunto documental inclui a Matriz de Avaliação de Risco em Inteligência Artificial em Pesquisa com Seres Humanos (MARIAH), desenvolvida para apoiar a identificação, análise e classificação proporcional dos riscos relacionados ao uso da IA.

Entretanto, o resultado da MARIAH possui caráter orientativo. A avaliação, o julgamento e a deliberação continuam sendo responsabilidades dos CEPs.

Isso significa que a utilização da ferramenta não elimina a necessidade de uma análise contextualizada do protocolo.

O que isso pode representar para os pesquisadores?

Na prática, projetos que utilizem inteligência artificial precisarão considerar de maneira cada vez mais clara os aspectos relacionados à tecnologia durante seu planejamento.

Isso pode envolver, por exemplo, explicar:

Qual será a finalidade da IA?
É necessário compreender exatamente em qual etapa da pesquisa a tecnologia será utilizada e qual será sua função.

Quais dados serão utilizados?
A origem, qualidade, representatividade e forma de tratamento dos dados passam a ter relevância também sob a perspectiva ética.

Existem riscos de viés?
Sistemas treinados com bases de dados pouco representativas podem reproduzir ou ampliar determinadas distorções.

Haverá supervisão humana?
A utilização de IA não elimina a necessidade de responsabilidade humana sobre as decisões e processos envolvidos na pesquisa.

Como os riscos serão monitorados?
Dependendo da tecnologia utilizada, os riscos podem não ser estáticos. Por isso, o monitoramento ao longo do estudo também é considerado.

Esses elementos podem impactar tanto a elaboração dos protocolos quanto a documentação apresentada para avaliação ética.

Um conjunto de três instrumentos

A iniciativa da Inaep não se limita ao guia.

O conjunto documental disponibilizado é composto por três instrumentos complementares:

1. Guia de Uso Ético de Inteligência Artificial em Pesquisa com Seres Humanos
Estabelece as orientações e serve como referência comum para a avaliação ética.

2. Caderno Referencial
Apresenta os fundamentos éticos, científicos, conceituais e regulatórios que sustentam as orientações.

3. MARIAH
Ferramenta destinada a apoiar a identificação, análise e classificação proporcional dos riscos éticos relacionados à utilização da IA.

O documento ainda está em fase de aplicação inicial

Outro ponto relevante é que as orientações não foram apresentadas como definitivas.

A versão disponibilizada corresponde à versão 1.0. A Inaep prevê um período de consulta pública para receber contribuições da sociedade e, paralelamente, os CEPs poderão utilizar e testar a MARIAH durante um período inicial de seis meses.

A proposta é observar a aplicação prática das orientações e identificar pontos que possam ser aperfeiçoados em versões futuras.

E para a pesquisa clínica?

Para quem atua em pesquisa clínica, o movimento representa mais um passo na consolidação de uma abordagem baseada em risco, transparência e proteção dos participantes diante de novas tecnologias.

A inteligência artificial pode trazer ganhos importantes para a pesquisa, mas sua utilização também cria novas perguntas regulatórias e éticas.

Por isso, incorporar a IA ao planejamento de um estudo não deve significar apenas avaliar sua capacidade tecnológica. É necessário compreender seus impactos sobre os participantes, os dados, os processos de tomada de decisão e a própria condução da pesquisa.

O novo guia da Inaep representa, portanto, uma tentativa de criar uma linguagem comum para essa discussão no Brasil — permitindo que inovação e proteção dos participantes caminhem juntas.

Fonte: Ministério da Saúde — Instância Nacional de Ética em Pesquisa (Inaep), 25 de setembro de 2026.