O Brasil pode se tornar um hub global de pesquisa clínica? O papel da regulação, da inovação e da infraestrutura nesse cenário

Por Heloisa Salomão 6 de novembro de 2026

O Brasil reúne características importantes para se consolidar como um dos principais destinos mundiais para a realização de pesquisas clínicas. A diversidade da população, a estrutura hospitalar, a experiência de centros de pesquisa e o avanço do ambiente regulatório são fatores que favorecem esse movimento.

Entretanto, transformar esse potencial em protagonismo internacional exige mais do que atrair estudos de grandes empresas farmacêuticas. É necessário construir um ecossistema capaz de oferecer segurança regulatória, eficiência operacional, qualidade científica e previsibilidade para todos os envolvidos no desenvolvimento de novos medicamentos.

Esse debate ganhou destaque recentemente no setor, especialmente diante das mudanças regulatórias brasileiras e do crescente interesse de patrocinadores internacionais pelo país.

Mas o que realmente significa ser um hub global de pesquisa clínica? E quais são os fatores que podem determinar se o Brasil conseguirá ocupar essa posição?

O que torna um país competitivo na pesquisa clínica?

A escolha de um país para participar de um estudo clínico internacional envolve uma avaliação que vai muito além do tamanho de sua população.

Os patrocinadores precisam considerar diferentes aspectos antes de selecionar os países e centros que participarão de seus protocolos. Entre eles estão:

  • Capacidade regulatória e previsibilidade dos processos de aprovação.
  • Infraestrutura hospitalar e disponibilidade de centros de pesquisa qualificados.
  • Experiência das equipes na condução de estudos clínicos.
  • Capacidade de recrutamento e retenção de participantes.
  • Qualidade e confiabilidade dos dados produzidos.
  • Segurança jurídica e operacional.
  • Custos e prazos envolvidos na execução dos estudos.

Esses fatores influenciam diretamente o planejamento do desenvolvimento clínico de um medicamento.

Imagine uma empresa farmacêutica que pretende conduzir um estudo de fase III em diversos países simultaneamente. Para cumprir seu cronograma, ela precisa que cada país tenha condições de avaliar, aprovar e iniciar o estudo dentro de um período compatível com o planejamento global.

Quando um país apresenta processos excessivamente demorados ou pouco previsíveis, pode acabar perdendo espaço para outras regiões que oferecem condições mais favoráveis.

É nesse contexto que a competitividade regulatória se torna um diferencial estratégico.

A evolução do marco regulatório brasileiro e seus impactos

Durante muitos anos, a complexidade e o tempo dos processos de aprovação foram apontados como obstáculos para a participação brasileira em estudos clínicos internacionais.

A necessidade de diferentes avaliações, a organização dos fluxos regulatórios e a previsibilidade dos prazos influenciavam diretamente a decisão dos patrocinadores sobre incluir ou não o Brasil em seus programas de desenvolvimento clínico.

Um dos marcos mais importantes dessa transformação foi a publicação da Lei nº 14.874, de 28 de maio de 2024, que estabeleceu um novo marco legal para a pesquisa com seres humanos no Brasil.

A legislação trouxe uma nova organização para o sistema nacional de avaliação ética, estabelecendo diretrizes para a proteção dos participantes e para o funcionamento das pesquisas envolvendo seres humanos.

Essa mudança é relevante porque a competitividade internacional depende de um ambiente regulatório que consiga equilibrar dois objetivos fundamentais: garantir a proteção dos participantes e permitir que as pesquisas avancem de maneira eficiente.

É importante destacar que agilidade não significa flexibilização indiscriminada dos requisitos éticos e científicos. Pelo contrário, um sistema regulatório eficiente precisa oferecer avaliações consistentes, critérios claros e processos previsíveis.

Para patrocinadores e CROs, essa previsibilidade facilita o planejamento das submissões, a organização dos documentos regulatórios, a definição dos cronogramas e o início das atividades nos centros de pesquisa.

A evolução do ambiente regulatório, portanto, pode representar uma oportunidade para ampliar a participação brasileira em estudos internacionais.

Infraestrutura científica: uma vantagem que precisa ser melhor aproveitada

O Brasil possui uma estrutura científica relevante, formada por hospitais, universidades, instituições de pesquisa e centros especializados na condução de estudos clínicos.

Essa experiência representa uma vantagem competitiva, especialmente quando associada à diversidade da população brasileira.

A composição genética, étnica e epidemiológica do país permite estudar diferentes características populacionais, contribuindo para a avaliação da segurança e eficácia de medicamentos em grupos distintos.

Essa diversidade é particularmente importante no desenvolvimento de tratamentos que precisam apresentar resultados consistentes em diferentes populações.

Além disso, a participação em estudos clínicos oferece aos pacientes a possibilidade de acesso a tratamentos experimentais, sob acompanhamento médico e dentro de protocolos aprovados, contribuindo também para o avanço do conhecimento científico.

Entretanto, existe um desafio importante: a concentração da infraestrutura de pesquisa em determinadas regiões do país, principalmente no Sul e Sudeste.

Ampliar a participação de outras regiões significa não apenas aumentar o número de centros disponíveis, mas também desenvolver capacidade técnica, investir em infraestrutura e fortalecer a integração entre hospitais, universidades e instituições de pesquisa.

A expansão geográfica pode contribuir para melhorar o recrutamento, ampliar a representatividade dos participantes e tornar o ambiente brasileiro ainda mais atrativo para estudos multicêntricos.

O desafio de atrair estudos em fases iniciais

Outro aspecto importante para o desenvolvimento da pesquisa clínica brasileira é ampliar a participação do país nas diferentes fases do desenvolvimento de medicamentos.

Historicamente, países com maior tradição em pesquisa clínica conseguem atrair estudos desde as etapas iniciais do desenvolvimento clínico, incluindo estudos de fase I.

Essas pesquisas são fundamentais para avaliar inicialmente a segurança, a tolerabilidade, a farmacocinética e outras características de um medicamento experimental em seres humanos, conforme o desenho e os objetivos de cada protocolo.

Participar dessas etapas permite que o país desenvolva maior experiência científica e técnica, além de fortalecer sua inserção nas estratégias globais de desenvolvimento de novos tratamentos.

Para isso, entretanto, são necessários centros altamente qualificados, equipes experientes, infraestrutura adequada e processos regulatórios capazes de atender às particularidades desses estudos.

Atrair pesquisas em fases iniciais também pode estimular investimentos em tecnologia, capacitação profissional e desenvolvimento científico nacional.

O objetivo deve ser deixar de atuar apenas como um destino para recrutamento de participantes em estudos internacionais e ampliar a participação brasileira nas diferentes etapas da inovação farmacêutica.

O investimento privado e a internacionalização da pesquisa

O crescimento sustentável da pesquisa clínica depende de uma relação cada vez mais próxima entre instituições públicas, centros de pesquisa, CROs, universidades e indústria farmacêutica.

O investimento privado desempenha um papel importante nesse processo, pois permite ampliar a capacidade operacional dos centros, desenvolver novas tecnologias e estimular a participação brasileira em programas internacionais.

A aproximação com mercados que vêm ganhando destaque na inovação biofarmacêutica, como China e Coreia do Sul, também representa uma oportunidade.

Esses países têm ampliado sua atuação no desenvolvimento de medicamentos e podem se tornar parceiros importantes para a realização de pesquisas multicêntricas.

Para o Brasil, essa internacionalização pode significar novas oportunidades de participação em projetos globais, intercâmbio de conhecimento e ampliação da experiência dos profissionais e instituições nacionais.

Entretanto, para aproveitar essas oportunidades, será necessário demonstrar que o país possui condições de conduzir pesquisas de acordo com padrões internacionais de qualidade, segurança e integridade dos dados.

Tecnologia e qualidade dos dados: pilares da pesquisa clínica moderna

A transformação digital também precisa fazer parte da estratégia brasileira para ampliar sua competitividade.

Atualmente, a pesquisa clínica depende de uma grande quantidade de informações, que precisam ser coletadas, processadas, armazenadas e disponibilizadas de maneira segura e confiável.

Sistemas de gerenciamento de dados clínicos, plataformas de captura eletrônica de dados (EDC), ferramentas de monitoramento remoto e soluções de gerenciamento de documentos são exemplos de tecnologias que contribuem para melhorar a execução dos estudos.

Entretanto, a utilização dessas ferramentas exige atenção a aspectos fundamentais:

  • Integridade e rastreabilidade dos dados.
  • Segurança da informação.
  • Proteção dos dados pessoais dos participantes.
  • Controle de acesso e gerenciamento de informações.
  • Validação dos sistemas computadorizados, quando aplicável.
  • Conformidade com os requisitos regulatórios e boas práticas clínicas.

A tecnologia pode tornar os processos mais eficientes, mas precisa estar integrada a uma estrutura de qualidade bem estabelecida.

Não basta digitalizar processos: é necessário garantir que as informações produzidas sejam confiáveis e que possam sustentar as decisões relacionadas à segurança e à eficácia dos medicamentos investigados.

O crescimento do setor também depende da qualificação profissional

Se o Brasil pretende ampliar sua participação na pesquisa clínica internacional, será necessário investir também na formação e no desenvolvimento dos profissionais envolvidos.

O aumento do número de estudos tende a ampliar a demanda por especialistas em diferentes áreas, como assuntos regulatórios, monitoria clínica, gerenciamento de projetos, farmacovigilância, gestão de dados, garantia da qualidade e coordenação de centros de pesquisa.

Na área regulatória, por exemplo, o profissional precisa acompanhar constantemente as atualizações da legislação brasileira e os requisitos internacionais aplicáveis aos estudos.

Também precisa compreender a documentação necessária para as submissões, os processos de aprovação, as notificações, as emendas e as obrigações regulatórias ao longo da condução de uma pesquisa.

Essa atuação é essencial para garantir que os estudos sejam conduzidos em conformidade com os requisitos aplicáveis e que as informações necessárias estejam disponíveis para as autoridades regulatórias.

O fortalecimento do setor, portanto, depende não apenas de investimentos em infraestrutura, mas também da valorização do conhecimento técnico e da capacitação contínua das equipes.

Afinal, o que falta para o Brasil se tornar um hub global?

O Brasil já possui importantes vantagens competitivas, mas ainda precisa avançar em diferentes frentes para transformar seu potencial em uma posição de destaque internacional.

Entre as principais necessidades, podemos destacar:

Previsibilidade regulatória: consolidar um ambiente com processos claros, avaliações eficientes e segurança jurídica.

Descentralização da pesquisa: ampliar a capacidade dos centros de pesquisa em diferentes regiões do país.

Investimento em infraestrutura: fortalecer hospitais, instituições e centros especializados na condução de estudos clínicos.

Inovação científica: estimular a participação brasileira em estudos de fases iniciais e em projetos de desenvolvimento de novas terapias.

Integração internacional: ampliar parcerias com patrocinadores e instituições de diferentes mercados.

Qualificação profissional: investir na formação de equipes capazes de atender aos padrões científicos, éticos e regulatórios exigidos internacionalmente.

Esses elementos precisam evoluir de maneira integrada. A competitividade de um país não é construída por uma única mudança legislativa ou pelo aumento pontual do número de estudos, mas pela capacidade de manter um ambiente confiável e sustentável para a pesquisa clínica.

Conclusão: o potencial brasileiro precisa se transformar em protagonismo

O Brasil tem condições importantes para ampliar sua participação no cenário mundial da pesquisa clínica.

A diversidade populacional, a experiência dos centros de pesquisa, a infraestrutura científica e a evolução do ambiente regulatório representam oportunidades que precisam ser aproveitadas estrategicamente.

Entretanto, tornar-se um hub global exige continuidade. É necessário fortalecer os processos regulatórios, ampliar os investimentos, desenvolver profissionais e garantir que as instituições brasileiras estejam preparadas para participar de estudos cada vez mais complexos.

Mais do que atrair pesquisas internacionais, o país precisa construir um ambiente capaz de contribuir ativamente para o desenvolvimento de novos medicamentos e tecnologias em saúde.

Esse movimento beneficia todo o ecossistema: patrocinadores, CROs, centros de pesquisa, profissionais, instituições científicas e, principalmente, os pacientes.

O desafio não é apenas fazer com que mais estudos clínicos cheguem ao Brasil, mas garantir que o país esteja preparado para ocupar um papel cada vez mais relevante na ciência e na inovação em saúde.

Para saber mais

A discussão sobre a competitividade brasileira na pesquisa clínica também foi abordada recentemente pelo jornal O Estado de S. Paulo. Recomendamos a leitura das reportagens originais, que apresentam entrevistas e perspectivas de especialistas do setor.

Referências complementares:

  1. O Estado de S. Paulo — Mais competitivo em pesquisas, Brasil pode se tornar ‘hub’. 6 de novembro de 2026.
  2. O Estado de S. Paulo — Continuação da reportagem, com discussões sobre investimento privado, internacionalização e desafios da pesquisa clínica brasileira. 6 de novembro de 2026.