Brasil avança na pesquisa clínica global e aproxima a inovação dos pacientes
O Brasil vive um momento importante para a pesquisa clínica. Dados parciais de 2026 indicam que o País alcançou a 12ª posição no ranking mundial de estudos clínicos iniciados, avançando seis colocações em relação a 2025, quando ocupava o 18º lugar.
O levantamento, desenvolvido pela Interfarma em parceria com a IQVIA, registrou 51 novos estudos no Brasil, correspondentes a 2,9% das pesquisas iniciadas globalmente no período analisado. Embora os números ainda sejam parciais, eles mostram que o País começa a transformar seu potencial científico, populacional e assistencial em maior competitividade internacional. Interfarma
Esse avanço ocorre em um cenário marcado pela modernização das regras aplicáveis à pesquisa com seres humanos e pelo aumento do interesse de empresas farmacêuticas em desenvolver estudos no Brasil.
O papel da pesquisa clínica na inovação em saúde
Antes que um novo medicamento, vacina ou terapia seja disponibilizado à população, é necessário avaliar sua segurança, eficácia e relação entre riscos e benefícios.
A pesquisa clínica é a etapa que permite transformar descobertas científicas em alternativas terapêuticas que possam ser utilizadas na prática médica. Esse processo envolve protocolos rigorosos, avaliação ética, análise regulatória, acompanhamento dos participantes e produção sistemática de evidências.
Portanto, ampliar a participação brasileira em estudos clínicos não representa apenas atrair investimentos. Significa também aproximar pacientes, profissionais e centros de pesquisa das novas fronteiras da medicina.
O novo marco regulatório como fator de competitividade
A Lei nº 14.874/2024 estabeleceu princípios, diretrizes e regras para pesquisas com seres humanos e instituiu o Sistema Nacional de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, o Sinep. Entre seus fundamentos estão a proteção da dignidade, da segurança e do bem-estar dos participantes, além do incentivo ao desenvolvimento técnico-científico. Lei nº 14.874/2024
Posteriormente, o Decreto nº 12.651/2025 regulamentou a legislação e detalhou a organização do sistema. O decreto também determinou a adoção de medidas para simplificar os processos, promover uma condução ética e eficiente dos estudos e fortalecer a governança da pesquisa no País. Decreto nº 12.651/2025
Um dos avanços apontados pelo setor é a possibilidade de realização paralela das análises ética e sanitária. A expectativa é reduzir etapas sequenciais, aumentar a previsibilidade dos prazos e aproximar o Brasil das práticas adotadas em outros centros internacionais.
Essa previsibilidade é estratégica. Estudos clínicos globais são distribuídos entre diferentes países, e atrasos na aprovação podem fazer com que centros brasileiros percam oportunidades de participação e recrutamento.
Diversidade brasileira fortalece as evidências científicas
O Brasil reúne uma população ampla e diversa, com diferentes origens étnicas, condições socioeconômicas e perfis epidemiológicos. Essa característica permite avaliar novas terapias em grupos mais representativos da população que utilizará os tratamentos na prática.
A inclusão de participantes com diferentes perfis aumenta a qualidade das evidências e ajuda a identificar possíveis variações na resposta, na segurança e na efetividade das intervenções.
Entretanto, possuir diversidade populacional não garante automaticamente uma pesquisa inclusiva. É necessário reduzir barreiras geográficas, econômicas, culturais e informacionais que dificultam a participação de comunidades historicamente sub-representadas.
A concentração de centros de pesquisa nas regiões mais desenvolvidas também continua sendo um desafio. A expansão para outras localidades pode ampliar o acesso aos estudos e, ao mesmo tempo, fortalecer a infraestrutura e a qualificação profissional dos serviços de saúde locais.
Investimentos e estudos em áreas estratégicas
Nesse ambiente mais favorável, empresas farmacêuticas vêm ampliando sua atuação no País. Segundo o conteúdo publicado pela Novartis e pelo Estadão Blue Studio, a Novartis investiu aproximadamente R$ 145 milhões em pesquisa clínica no Brasil em 2025, aumento de cerca de 45% em relação ao ano anterior.
A empresa informou conduzir 114 estudos, envolvendo mais de 2,4 mil pacientes, em áreas como onco-hematologia, imunologia, doenças cardiovasculares, renais e metabólicas e neurociências.
Esses programas também incluem plataformas de maior complexidade, como terapias gênicas, celulares e radioligantes. A presença dessas tecnologias exige centros preparados, profissionais especializados e estruturas regulatórias capazes de acompanhar inovações que não se enquadram integralmente nos modelos tradicionais de desenvolvimento de medicamentos.
Pesquisa clínica também é desenvolvimento do sistema de saúde
A realização de um estudo mobiliza uma ampla cadeia de profissionais e instituições. Pesquisadores, médicos, enfermeiros, farmacêuticos, especialistas regulatórios, equipes de qualidade, laboratórios, patrocinadores e Comitês de Ética em Pesquisa participam desse ecossistema.
Quando conduzida de forma ética e responsável, a pesquisa clínica pode gerar benefícios que ultrapassam o protocolo:
- Qualificação de profissionais;
- Melhoria da infraestrutura dos centros;
- Incorporação de práticas de qualidade;
- Maior capacidade diagnóstica;
- Produção de conhecimento científico nacional;
- Acesso antecipado a terapias experimentais.
O acesso a um estudo, contudo, não deve ser confundido com garantia de benefício terapêutico. Toda pesquisa envolve incertezas, critérios de elegibilidade e riscos que precisam ser apresentados claramente no processo de consentimento.
O avanço no ranking é um começo
A chegada à 12ª posição mundial representa um sinal positivo, mas não elimina os desafios do ambiente brasileiro.
Para consolidar essa trajetória, será necessário manter a previsibilidade regulatória, ampliar a capacitação dos centros, melhorar a distribuição regional das pesquisas e preservar elevados padrões de proteção aos participantes.
O protagonismo brasileiro não deve ser medido apenas pelo número de estudos realizados. Ele também depende da qualidade científica das pesquisas, da diversidade dos participantes, da produção de conhecimento local e da capacidade de fazer com que a inovação gere benefícios concretos para a população.
O Brasil reúne condições para ocupar uma posição ainda mais relevante na pesquisa clínica internacional. O desafio agora é transformar o avanço regulatório e o interesse global em uma política sustentável de ciência, inovação e acesso à saúde.




