Farmacovigilância e Desvios de Qualidade na Assistência e na Pesquisa Clínica

Por rezeta 29 de julho de 2026

Pouco se fala sobre o paciente que não apresentou um evento adverso porque um risco foi identificado e controlado a tempo. Esse resultado demonstra a importância do trabalho contínuo realizado pelas áreas de farmacovigilância, qualidade e vigilância sanitária.

Embora desempenhem funções diferentes, essas áreas compartilham um objetivo: reduzir riscos relacionados aos medicamentos e proteger os pacientes.

Qual é a relação entre farmacovigilância e qualidade?

A farmacovigilância atua na detecção, avaliação, compreensão e prevenção de eventos adversos e de outros problemas relacionados ao uso de medicamentos.

O desvio de qualidade, por sua vez, é uma não conformidade em relação aos requisitos estabelecidos para o produto. Pode envolver sua composição, fabricação, embalagem, armazenamento ou identificação.

Alguns exemplos são:

  • Partículas em soluções injetáveis;
  • Frascos ou ampolas danificados;
  • Falhas na vedação;
  • Erros de concentração na embalagem;
  • Alterações na aparência do produto;
  • Problemas de esterilidade;
  • Resultados analíticos fora das especificações.

Nem todo desvio provoca um evento adverso, mas qualquer irregularidade com potencial de afetar a segurança ou a eficácia precisa ser investigada.

Quando um desvio se torna um risco para o paciente?

O impacto depende das características do problema, da via de administração, da população exposta e da possibilidade de o produto já ter sido utilizado.

Um erro de rotulagem, por exemplo, pode levar à administração de uma dose diferente da prescrita. Uma falha de vedação pode comprometer a integridade do medicamento. Já a presença de partículas em um produto injetável exige atenção imediata.

Por isso, as informações precisam circular rapidamente entre farmacovigilância, qualidade, assuntos regulatórios, assistência à saúde e demais áreas envolvidas.

O que hospitais, clínicas e farmácias devem fazer?

Ao receber um alerta de recolhimento, o estabelecimento deve verificar se possui unidades pertencentes aos lotes informados.

As principais medidas incluem:

  1. Interromper o uso e a dispensação do lote;
  2. Segregar e identificar as unidades localizadas;
  3. Registrar as quantidades disponíveis;
  4. Comunicar os responsáveis internos;
  5. Verificar se houve utilização por pacientes;
  6. Seguir as orientações para devolução ou destinação;
  7. Documentar todas as ações realizadas;
  8. Notificar eventos adversos e queixas técnicas pelos canais adequados.

O produto recolhido não deve permanecer disponível para uso nem ser descartado sem o cumprimento dos procedimentos definidos pela instituição e pela empresa responsável.

Como um recolhimento afeta a pesquisa clínica?

Nos ensaios clínicos, o medicamento atingido pode ser:

  • O produto investigacional;
  • Um comparador;
  • Uma terapia de suporte;
  • Um medicamento concomitante utilizado pelo participante.

Ao receber a comunicação, a equipe do centro precisa identificar se o lote está armazenado na instituição, se alguma unidade foi dispensada ou administrada e quais participantes podem ter sido expostos.

Também deve avaliar:

  • Se houve evento adverso ou queixa de qualidade;
  • Se a segurança dos participantes foi comprometida;
  • Se o desvio pode afetar a integridade dos dados;
  • Se é necessário comunicar o patrocinador;
  • Se existem obrigações perante o sistema de revisão ética ou a autoridade regulatória;
  • Como será realizada a segregação, devolução ou destruição do produto.

Essa análise deve envolver, conforme aplicável, investigador, farmácia do estudo, coordenação, monitoria, patrocinador, CRO, qualidade, farmacovigilância e assuntos regulatórios.

Documentação e rastreabilidade no centro de pesquisa

Todas as ações relacionadas ao lote precisam ser registradas de forma clara. A documentação pode incluir:

  • Quantidade recebida pelo centro;
  • Quantidade dispensada ou administrada;
  • Unidades devolvidas pelos participantes;
  • Saldo disponível;
  • Data da segregação;
  • Comunicações recebidas e enviadas;
  • Orientações fornecidas à equipe;
  • Destinação final do produto.

Esses registros são importantes para demonstrar o controle do medicamento e reconstruir as decisões tomadas durante uma auditoria ou inspeção.

Qual deve ser a orientação ao paciente?

O paciente que possui um medicamento pertencente a um lote recolhido deve procurar orientação de um profissional ou do canal indicado pela empresa responsável.

Tratamentos contínuos não devem ser interrompidos por iniciativa própria, pois a suspensão repentina também pode representar riscos.

A comunicação deve explicar claramente como verificar o lote, quais cuidados adotar e onde obter uma unidade de substituição, quando aplicável.

Segurança se constrói antes do evento adverso

O recolhimento não começa somente quando os produtos são retirados das prateleiras. Ele começa com a identificação de um sinal, o registro de uma reclamação, a investigação do desvio e a comunicação rápida entre os responsáveis.

Farmacovigilância, gestão da qualidade e rastreabilidade formam uma rede de proteção que acompanha o medicamento durante todo o seu ciclo de vida.

Embora esse trabalho aconteça longe dos holofotes, sua eficiência reduz exposições desnecessárias, protege os participantes de pesquisas e contribui para a segurança dos pacientes.